Opinião. Coluna assinada por Thalles Mota. Os números vêm de fontes oficiais, dos próprios municípios e de mercado, todos linkados. As estimativas de soma e de economia são minhas, montadas sobre esses dados e deliberadamente contidas no piso — e a falta de um número oficial consolidado do Araguaia é, ela mesma, parte da denúncia.
Todos os anos, no Araguaia, quando a água recua, sobem de dentro do rio faixas de areia branca que viram praia de verdade — barraca, guarda-sol, criança na beira, som ligado. As praias surgem antes de julho e resistem depois; em julho vêm os festejos e o pico de gente. De Barra do Garças ao Norte-Araguaia, num trecho de cerca de 600 quilômetros entre Mato Grosso e Goiás, forma-se o maior balneário de água doce do país. E a Baixada Cuiabana finge que não viu.
A conta que ninguém soma
Para termos uma dimensão desse movimento demográfico, apenas Aruanã (GO) projeta cerca de 1 milhão de visitantes em julho de 2026, segundo a Secretaria de Turismo do município. Uma cidade, um milhão de pessoas, um mês. E Aruanã não está sozinha: do lado goiano vêm Aragarças, Britânia, São Miguel do Araguaia, Nova Crixás, Mundo Novo e Baliza; do mato-grossense, Barra do Garças — que já passou de 30 mil visitantes em três fins de semana —, Cocalinho, São Félix, Santa Terezinha, Luciara, Araguaiana, Pontal e a vila de Lago Grande. São muitos pequenos municípios e distritos vivendo a mesma temporada.
Some tudo e o corredor cruza 2 milhões de pessoas em julho, e passa dos 3 milhões no ano — porque a estação de águas baixas, puxada pela pesca, vai de março a outubro. Para dar tamanho a isso: as Cataratas do Iguaçu receberam pouco mais de 2 milhões em todo o ano de 2025, o melhor da sua história; Manaus e o Amazonas inteiro, 460 mil. Some as duas e dá cerca de 2,5 milhões — ainda menos do que o Araguaia recebe ao longo de um ano. O Araguaia faz num mês o que Foz faz num ano — e sem catraca que meça, sem número oficial consolidado. O maior destino de água doce do país simplesmente não é contado. E o que não se mede não se cobra, não se planeja e não se financia.
Dinheiro é o que não falta nessa conta. A pesquisa oficial da Expedição Araguaia, do Observatório do Turismo de Goiás, apurou gasto médio perto de R$ 1 mil por turista; a prefeitura de São Miguel do Araguaia contabiliza 100 mil visitantes e R$ 30 milhões numa única temporada. Multiplique pela escala do corredor e a temporada movimenta, no piso conservador, centenas de milhões de reais — a economia de um grande evento nacional, só que espalhada pelo comércio, pela pousada e pelo pescador de duas dúzias de cidades pequenas.
Muita festa, nenhuma estrada
O Estado até aparece — para o palco. São Félix do Araguaia recebeu R$ 1,2 milhão do governo estadual para os shows da temporada. O que não chega é o asfalto. São Félix é um dos municípios de Mato Grosso sem nenhum acesso pavimentado: depois de 44 anos, só agora ganha a primeira ligação asfáltica. Luciara, que divide a estrada com São Félix, também não tem asfalto; nem Santa Terezinha; nem a vila de Lago Grande, alcançada só por Santa Terezinha ou por Vila Rica — as duas por chão. E são ligações estaduais, de responsabilidade direta do governo de Mato Grosso. Não há hidrovia estruturada, não há ferrovia, e não há aeroporto de grande porte nem voo internacional — os mais próximos são Palmas, Goiânia ou Cuiabá. O turista chega ao maior destino que o estado tem pela poeira, e no atoleiro da primeira chuva. Não é acaso: é o retrato de uma região que sempre teve pouca voz, a ponto de ter sido apelidada de Vale dos Esquecidos.
Enquanto isso, ao lado da capital, o governo ergue o Parque Novo Mato Grosso: orçado em R$ 150 milhões, o custo já ultrapassa R$ 600 milhões e pode chegar a R$ 1,5 bilhão, segundo levantamentos da imprensa, vendido como o maior polo de turismo e lazer do estado. Fica a pergunta, sem meia palavra: erguer um parque bilionário para atrair gente à Baixada Cuiabana faz sentido, quando o polo de turismo que já existe — e que já atrai milhões — está do outro lado do estado, no barro? Não é falta de dinheiro, nem de engenharia. É falta de olhar para cá.
Só falta a estrada
A solução tem nome e traçado: uma Rodovia Araguaia, asfalto contínuo de Barra do Garças a Lago Grande, passando por Cocalinho, São Félix e Luciara, costurando num só eixo o que hoje são ilhas isoladas. Sobre ela nasceria o Circuito de Praias do Araguaia — um roteiro único e vendável, capaz de transformar dez temporadas soltas no maior centro de turismo de água doce do país e de colocar o Araguaia na rota do turismo internacional. Praia de rio limpo, com botos que comem na mão da gente em Luciara, pesca esportiva em Cocalinho e a cultura viva dos povos Karajá e Tapirapé é produto que o Pantanal já vende e o Araguaia ainda dá de graça. Com estrada, isso vira renda que fica — inclusive para as comunidades indígenas, que deixariam de ser paisagem de fundo para virar donas de um pedaço do negócio.
Mas não é só a estrada que precisa ser cobrada. Nada disso se sustenta sem uma mudança de postura no nível municipal — e aqui o número envergonha. Em São Félix do Araguaia, praticamente nada do esgoto é coletado ou tratado — 0%, segundo o SNIS —, e mais de 80% da população usa fossa rudimentar. Não por acaso, um estudo da UEG aponta Aruanã, Aragarças e Britânia como pontos críticos do rio, com marcas de despejo de esgoto sob a pressão do turismo — e a própria Assembleia Legislativa de Mato Grosso já cobrou apuração sobre despejo irregular no Araguaia em Barra do Garças. De nada adianta atrair 2 milhões de pessoas para uma água que se deixa sujar. O Araguaia não pede favor: ele já entrega, sozinho e sem estrutura, o público que Foz do Iguaçu leva um ano para juntar. Com infraestrutura à altura e um rio cuidado, ele não seria só a maior atração do Centro-Oeste — seria candidato a maior atração turística do Brasil. Falta pouco. Falta o começo de tudo: cuidar do rio e abrir a estrada.
Revisão e checagem: Rui Bastos

